Author name: Denis Matos

Vazamento saiu de dentro da operação, aponta GAECO; quem avisou o advogado ainda é incógnita

Carro de Amilton Ferreira de Almeida rodou pelo Jardim Veraneio, onde fica a sede do MP, três minutos antes de ligar para o delegado; promotores dizem que informação escapou depois da chegada das equipes de apoio da PM e da Corregedoria

A denúncia da segunda fase da Operação Infiltrados responde quem avisou o delegado Hoffman D’Ávila de que seria preso, mas deixa em aberto a pergunta que interessa à cúpula da segurança pública do Estado: quem avisou o advogado. O GAECO sustenta que o criminalista Amilton Ferreira de Almeida obteve a informação sigilosa “ao que tudo indica após a chegada na sede do GAECO das diversas equipes externas que participaram das diligências” e cita nominalmente “grupamentos específicos da Polícia Militar e da Corregedoria da Polícia Civil”.

A janela é estreita. As equipes se concentraram na sede do grupo, no Jardim Veraneio, a partir das 3h30 da madrugada do dia 24 de setembro. Às 4h38, um radar do Sistema Alerta Brasil, do Ministério da Justiça, já flagrava a Hilux cinza do advogado, placa QAM3C47, em circulação na Avenida Olavo Vilela de Andrade. Às 4h57, o veículo passou pela Avenida do Poeta, no Jardim Veraneio. Às 5h, o telefone do advogado fez a primeira tentativa de chamada para o delegado.

O horário dos deslocamentos coincide com o instante em que o cerco começou a sair do papel. A denúncia registra que as equipes iniciaram o deslocamento para os endereços dos alvos exatamente às 5h.

DEZ POLICIAIS ALVOS

A peça acrescenta um dado que amplia o alcance do vazamento: a operação contava com “inúmeros policiais civis da Corregedoria” e, além de Hoffman, “outros 9 policiais civis foram alvos”. Nenhum dos outros deixou de ser localizado, só o delegado Hoffman.

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Um segundo canal de comunicação do delegado naquela madrugada permanece sem identificao. O número xxxx-5501, cadastrado em nome de terceiro, trocou quatro mensagens de texto com Hoffman entre 5h04 e 5h05, as primeiras enviadas de um Android segundos depois de o delegado desligar com o advogado, fez uma videochamada de 4 minutos e 27 segundos às 5h07, mandou nova mensagem às 5h13 e recebeu outra videochamada do delegado, de 3 minutos e 16 segundos, às 5h32, quando a polícia já estava dentro da casa. Para o GAECO, o dono dessa linha “auxiliou” Hoffman “na ocultação de provas” e “certamente integra, coopera ou comercializa com a organização criminosa”.

A interceptação, ressalva o próprio relatório técnico anexado à denúncia, “se limita aos metadados”: prova a existência, o horário, a direção e a duração das comunicações, não o que foi dito. A acusação de que o advogado transmitiu o aviso da operação é, portanto, inferência dos promotores a partir da cronologia, inferência que eles consideram “evidente” diante do que veio em seguida: a saída do delegado de casa às 5h18, doze minutos antes de a polícia entrar.

A denúncia foi oferecida contra os dois, mas o texto fala em “outros agentes ainda não identificados” e avisa que as análises continuam.

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MP denuncia delegado e advogado por obstruir operacão; alerta chegou 30 minutos antes da polícia

Carro do delegado saindo da casa minutos antes do GAECO chegar – Reproducao

Interceptação do WhatsApp mostra que Hoffman D’Ávila recebeu videochamada do advogado às 5h01 do dia da operação, deixou a casa às 5h18 e as equipes do GAECO chegaram às 5h30

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul denunciou à Justiça o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-titular da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), e o advogado criminalista Amilton Ferreira de Almeida pelo crime de obstrução de investigação envolvendo organização criminosa. Segundo a peça do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), protocolada no dia 14 de outubro na 2ª Vara Criminal Residual da Capital, o advogado avisou o delegado por telefone do início da Operação Infiltrados meia hora antes de os policiais baterem à porta de sua casa, no Carandá Bosque, tempo suficiente para que ele saísse levando o celular e outras provas.

A denúncia é a segunda fase da operação, batizada de Obstructio. A primeira, deflagrada em 24 de setembro, cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, 2 de prisão temporária e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos contra policiais civis acusados de desviar drogas apreendidas e devolvê-las ao tráfico, por meio do traficante Lucas da Silva dos Santos, o “LK”. Hoffman, que chefiou a Denar por anos e estava lotado como titular da Delegacia de Terenos, era um dos principais alvos. Sua casa foi encontrada vazia.

A investigacao apontou que a própria interceptação do WhatsApp do delegado, autorizada pela justiça, registraria o vazamento em tempo real.

MINUTO A MINUTO

De acordo com os registros fornecidos pelo WhatsApp e anexados à denúncia, as equipes se reuniram na sede do GAECO, no Jardim Veraneio dentro do Parque do Poderes, a partir das 3h30 e começaram a sair para os endereços dos alvos às 5h. Exatamente às 5h00min32s, o número (67) 99200-2875, do advogado Amilton, tentou uma chamada de áudio para o telefone de Hoffman, que foi rejeitada. Às 5h01min30s, o mesmo número fez uma chamada de vídeo, atendida, que durou 1 minuto e 12 segundos.

Para o Ministério Público, foi nessa ligação que o delegado soube da operação. A partir das 5h04, Hoffman passou a trocar mensagens e chamadas de vídeo com um terceiro número, (67) 99196-5501, registrado em nome de outra pessoa, uma videochamada de 4 minutos e 27 segundos entre 5h08 e 5h12. A denúncia afirma que esse interlocutor ajudou o delegado “na ocultação de provas”.

A câmera de segurança de um vizinho registrou o Honda HR-V de Hoffman saindo da garagem por volta das 5h18. As equipes chegaram à Rua Estrela do Norte às 5h24 e receberam autorização para entrar às 5h30, no mesmo minuto, o carro do delegado passava por um radar na Rua Ceará, segundo o Sistema Alerta Brasil, do Ministério da Justiça.

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Um minuto depois de a polícia chegar à sua rua, às 5h25, foi Hoffman quem ligou em vídeo para o advogado, por 1 minuto e 55 segundos. Para o GAECO, o delegado “estava monitorando a diligência em tempo real, ao que tudo indica por meio do sistema de câmeras da residência”. Seguiram-se outra videochamada com o número não identificado (3 minutos e 16 segundos) e uma última, de 23 segundos, do advogado para o delegado, às 5h38.

NA MADRUGADA E DE TERNO

Às 5h45, cerca de 15 minutos após o início da busca, a camionete Toyota Hilux do advogado estacionou na rua do delegado. Amilton desceu de terno e gravata, apresentou-se como defensor de Hoffman e acompanhou a busca. A denúncia observa que ele mora na Vila Albuquerque, a 11 quilômetros dali.

Os radares da cidade, porém, mostram que o advogado já estava na rua muito antes. A Hilux foi flagrada às 4h38 na Avenida Olavo Vilela de Andrade; às 4h52 e 4h54 na Avenida Ministro João Arinos; e às 4h57 na Avenida do Poeta, no Jardim Veraneio, bairro onde fica a sede do GAECO, “apenas três minutos antes” da primeira tentativa de ligação para o delegado, destaca a peça. Às 5h04, o veículo já descia a Afonso Pena em direção ao centro.

Interrogados, segundo a denúncia, o advogado atribuiu a saída de casa de madrugada, de terno, a uma “intuição” e disse ter ligado para o delegado para “tomar um café”. Hoffman afirmou que não entregou o celular para “preservar a sua intimidade”. Para os promotores, as versões são “absolutamente inverossímeis”.

Cadê o celular?

Hoffman se entregou à Corregedoria da Polícia Civil no fim da tarde do dia 24, sem o telefone, apesar de o mandado determinar expressamente a apreensão do aparelho e a quebra do sigilo dos dados, inclusive mensagens apagadas. Para o GAECO, o delegado “ocultou deliberadamente” o celular porque ele continha informações sobre o grupo criminoso. A denúncia lembra que o contato “Hoffman” consta da agenda telefônica de “LK” e que o próprio delegado, em interrogatório, admitiu manter contato direto com o traficante.

Os dois foram denunciados pela Lei das Organizações Criminosas, que pune quem “impede ou, de qualquer forma, embaraça” investigação sobre organização criminosa, com pena de 3 a 8 anos de reclusão. O MP pede ainda a perda do cargo de delegado de Hoffman e arrola cinco testemunhas, entre elas o corregedor-geral da Polícia Civil, Clever José Fante Esteves.

A peça cita como precedente a Operação Oiketicus, em que o Tribunal de Justiça de MS manteve, por unanimidade, a condenação de um policial militar, que era lotado na Casa Militar do governo do Estado, que se desfez do celular durante a busca e apreensão. “O simples fato de o tipo penal não prever expressamente a conduta de ‘extravio de aparelho celular’ não acarreta na sua atipicidade”, diz o acórdão de 2021 citado na denúncia.

Hoffman durante apresentacao de apreensao de drogas, na Denar – Reproducao

A denúncia foi oferecida agora, explica o GAECO, “em razão da existência de investigados presos”, mas as análises prosseguem “com o intuito de identificar os demais envolvidos”, entre eles, “outros agentes ainda não identificados” que teriam agido em “unidade de desígnios” com os dois denunciados.

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Aquisição da Caju pelo iFood pode mudar mercado de benefícios e afetar empresas e trabalhadores

Aquisição pode fortalecer a concorrência com grandes operadoras de benefícios, mas também levanta preocupações sobre concentração de mercado

A aquisição da Caju pelo iFood amplia a disputa no mercado de benefícios corporativos, que movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano no Brasil. A operação ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do Banco Central. O negócio abre espaço para discutir os efeitos da concentração de mercado, a concorrência entre operadoras e possíveis mudanças para empresas contratantes e trabalhadores que utilizam vale-refeição e vale-alimentação.

A operação pode ter efeitos distintos sobre a dinâmica competitiva do setor. De acordo com o advogado Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Empresarial, a união das empresas pode fortalecer a disputa com grandes operadoras, mas também eliminar a concorrência direta entre dois participantes que vinham investindo em inovação e estratégias comerciais para ampliar sua participação no mercado.

“A aquisição pode ser uma faca de dois gumes. Por um lado, a união entre iFood e Caju pode fortalecer a concorrência em um mercado historicamente concentrado em grandes operadoras de benefícios corporativos, como Ticket, Visa e VR. Por outro, a operação elimina a concorrência direta entre duas empresas que, embora menores, vinham se destacando por um modelo comercial agressivo e inovações tecnológicas”, afirma o especialista.

Operações de concentração empresarial não são necessariamente prejudiciais à concorrência. A combinação de estruturas pode gerar ganhos de escala, reduzir custos operacionais e viabilizar novos produtos e serviços. O desafio está em verificar se esses benefícios serão efetivamente repassados ao mercado ou se a redução do número de concorrentes poderá limitar as alternativas disponíveis.

“No caso específico, existe um argumento econômico relevante em favor da operação: a formação de um concorrente de maior porte, com capacidade financeira e tecnológica para disputar mercado com operadoras tradicionais, pode ampliar a pressão competitiva sobre todo o setor”, explica Canutto.

Os impactos também podem chegar às empresas que contratam os serviços. Caso a operação reduza as alternativas disponíveis no mercado, essas organizações poderão enfrentar menor poder de negociação, condições comerciais menos vantajosas e mais dificuldades para substituir fornecedores. “Para os trabalhadores, os reflexos podem aparecer na qualidade dos serviços, na variedade de benefícios, na liberdade de utilização dos cartões e no ritmo de inovação das plataformas”, complementa o advogado.

Efeitos concorrenciais

A análise da aquisição também envolve questões regulatórias que vão além do porte da empresa resultante. Na visão de Carlos Akira Sato, co-founder da Syscapital e especialista em Mercados Regulados, o Cade deverá avaliar se a combinação dos negócios pode reduzir a concorrência no mercado de benefícios corporativos ou criar condições que dificultem a atuação de outras empresas.

“No Cade, a questão central será o efeito sobre a concorrência. A análise pode considerar tanto a redução de um concorrente independente no mercado de benefícios quanto a combinação dessa atividade com o ecossistema de delivery”, afirma o especialista. Entre os aspectos que podem ser examinados estão eventuais mecanismos de exclusividade, discriminação na aceitação de cartões e condições comerciais capazes de dificultar a atuação de concorrentes. Essas hipóteses, ressalta, são pontos de análise, e não irregularidades já constatadas.

O especialista também destaca que as empresas precisam preservar sua independência competitiva até a decisão aplicável do Cade, evitando antecipar a integração comercial, coordenar preços ou compartilhar informações concorrencialmente sensíveis. “A preparação para uma eventual integração deve observar controles destinados a prevenir o gun jumping, termo utilizado para caracterizar a consumação antecipada de uma operação sujeita à aprovação concorrencial”, acrescenta.

A análise do Banco Central, por sua vez, depende da estrutura societária da transação e das atividades reguladas efetivamente envolvidas. “A supervisão de instituições de pagamento não se confunde com a fiscalização do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), e a oferta de cartões de benefícios, isoladamente, não permite determinar todo o alcance da avaliação regulatória. Caso a operação envolva a transferência de controle de uma instituição de pagamento sujeita à autorização do BC, poderão ser examinados requisitos aplicáveis aos novos controladores, como capacidade econômico-financeira, origem lícita dos recursos e reputação”, conclui Akira.

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PEC da Segurança Pública pode ficar no papel sem integração e financiamento, alerta especialista em Segurança Pública 

André Santos Pereira aponta desafios de articulação entre as forças policiais e destaca que mudanças constitucionais precisam de regulamentação para produzir resultados no combate ao crime organizado
 

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública será votada nesta quarta-feira (14) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A proposta prevê mudanças na organização da segurança pública brasileira, com alterações nas atribuições das forças policiais, no sistema penitenciário e na atividade de inteligência. Entre as medidas estão o endurecimento do regime jurídico para integrantes e líderes de organizações criminosas, a ampliação das competências da Polícia Federal, novas atribuições para a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). Se aprovada no colegiado, a proposta seguirá para votação no plenário da Casa.
 

Para o delegado André Santos Pereira, especialista em Segurança Pública, a mudança constitucional, por si só, não assegura resultados efetivos no enfrentamento às facções criminosas e na redução da violência. 
 

“Sobre o impacto direto no combate ao crime organizado, a mera constitucionalização não garante eficácia prática sem regulamentação infraconstitucional, pactuação federativa entre os tomadores de decisões e critérios objetivos de cooperação e financiamento”, afirma.
 

Um dos objetivos da PEC é fortalecer a coordenação nacional das políticas de segurança pública. Na avaliação de André, porém, a integração entre as instituições já enfrenta obstáculos que não serão necessariamente superados com a mudança constitucional. O delegado faz uma ressalva importante, de que a “integração já prevista na legislação vigente ainda não foi plenamente implementada, de modo que a simples alteração constitucional não elimina barreiras operacionais”.
 

Ele detalha os principais desafios para essa articulação funcionar na prática: “A superação de tensões com a autonomia dos Estados, a necessidade de construção de consensos sólidos entre os chefes dos Executivos e gestores das instituições policiais; a garantia de cooperação, interoperabilidade, alinhamento interinstitucional e financiamento adequado, evitando assimetrias na implementação e conflitos operacionais decorrentes de normas gerais impostas sem o devido respaldo prático”.
 

Pereira também chama a atenção para o risco de a proposta ficar concentrada nas disputas políticas e federativas, sem produzir efeitos concretos para a população. Para ele, a redução da criminalidade depende de planejamento técnico, participação dos profissionais da segurança pública e mecanismos que garantam a execução das medidas.
 

“A efetividade da PEC no enfraquecimento da criminalidade e redução da violência é cercada de incertezas. A proposta corre o risco de esbarrar em desafios políticos, orçamentários e operacionais se não for acompanhada de diagnósticos técnicos rigorosos e de ampla participação; sobretudo dos profissionais da segurança pública. Há um alerta evidente de que, sem uma regulamentação infraconstitucional precisa e mecanismos sérios de governança e financiamento, a discussão corre o risco de permanecer focada nas tensões federativas de competência e no debate político, carecendo de resultados práticos e efetivos para a população”, alerta.

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TCE-MS extingue multas de ex-prefeito de Chapadão do Sul

Punições somavam R$ 16 mil e foram encerradas por adesão a programas de desconto

O Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS) publicou sete decisões que encerram processos contra o ex-prefeito de Chapadão do Sul Luiz Felipe Barreto de Magalhães.

As multas somavam 290 UFERMS, a unidade que o Estado usa para corrigir valores. Pela cotação de setembro, R$ 55,47, o total equivale a R$ 16.086. Todas foram extintas depois que o ex-prefeito aderiu a programas estaduais que dão desconto a quem paga e desiste de recorrer.

Magalhães governou o município entre 2013 e 2016. Os fatos julgados nos sete processos ocorreram nesse período. As decisões são todas de 27 de agosto e do mesmo relator, o conselheiro Sérgio de Paula.

Multas

Em cinco dos processos, o tribunal considerou regulares a licitação, o contrato e a execução financeira. A punição foi só pelo envio de documentos fora do prazo, entre 30 e 40 UFERMS. Nos outros dois, o TCE-MS reconheceu falhas de conteúdo.

No processo TC/18599/2015, declarou irregular a própria licitação, um pregão presencial, e aplicou a maior multa do conjunto: 80 UFERMS. No TC/12028/2014, considerou o contrato regular, mas julgou irregular a execução financeira por “ausência documental e divergência de valores”. A multa foi de 50 UFERMS.

Há ainda o TC/1161/2014, em que a licitação e o contrato 015/2014 foram aprovados, mas a execução financeira não. Multa de 40 UFERMS.

Os três casos com irregularidade reconhecida tiveram o mesmo desfecho dos quatro por atraso de envio de documentos, extinção e arquivamento mediante pagamento com desconto, sem outra determinação.

Contexto

A administração de Magalhães enfrentou uma sequência de disputas judiciais no período dos fatos julgados.

Em novembro de 2014, ele foi afastado do cargo por decisão do juiz Silvio Cezar do Prado, da 1ª Vara Cível e Criminal do município, em processo sob segredo de justiça. A vice-prefeita, Elizabeth Buschmann Scheide, assumiu interinamente. Em janeiro de 2015, uma liminar do Tribunal de Justiça devolveu-lhe o cargo pela quarta vez, em ação por improbidade movida pelo Ministério Público.

As sete decisões do TCE-MS não fazem referência a esses processos. Magalhães deixou a prefeitura no fim de 2016. Foi sucedido por João Carlos Krug, eleito naquele ano e reeleito em 2020, e por Walter Schlatter, eleito em 2024.

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A transformação digital e a mudança nas análises de provas do judiciário brasileiro  

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Estudos incorporados ao acervo da Biblioteca do STF mostram como essa mudança já impacta litígios envolvendo tecnologia, plataformas digitais, contratos empresariais e ativos econômicos

A crescente digitalização das relações econômicas, empresariais e institucionais vem impondo novos desafios ao Poder Judiciário. Contratos eletrônicos, plataformas digitais, inteligência artificial, sistemas corporativos, registros em nuvem, bancos de dados e evidências digitais passaram a ocupar posição central nos litígios contemporâneos. Apesar dessa transformação, especialistas defendem que grande parte da doutrina e da prática probatória ainda se apoia em paradigmas concebidos para uma realidade predominantemente analógica.

É nesse contexto que os artigos jurídicos produzidos por Sthefano Scalon Cruvinel, CEO da EvidJuri, passaram a integrar bases de pesquisa jurídica consultadas por instituições do sistema de Justiça, incluindo a Biblioteca Ministro Victor Nunes Leal, do Supremo Tribunal Federal (STF). O acervo reúne obras doutrinárias, estudos técnicos e publicações especializadas que subsidiam pesquisas jurídicas e servem de referência para Ministros, Magistrados, assessores, pesquisadores, membros do Ministério Público, advogados e demais operadores do Direito.

A incorporação dos trabalhos amplia o alcance institucional da produção acadêmica de Cruvinel e insere suas pesquisas em um ambiente de consulta voltado ao aprofundamento de fundamentos doutrinários relacionados à prova, perícia, tecnologia e mensuração de danos em litígios de elevada complexidade.

Entre os estudos incorporados ao acervo estão “Cadeia de Custódia em Provas Digitais: a urgência de um paradigma interdisciplinar para além do processo penal” e “A impossibilidade de reduzir lucros cessantes à perda de uma chance em casos de inadimplemento absoluto ou rescisão imotivada”. Os artigos discutem questões cada vez mais presentes em disputas envolvendo tecnologia, relações de representação e parceria, contratos empresariais, plataformas digitais, sistemas de informação, ativos econômicos e produção de provas eletrônicas.

Segundo Cruvinel, a presença desses trabalhos em uma base de pesquisa utilizada pelo Supremo Tribunal Federal representa mais do que um reconhecimento acadêmico. Reflete uma transformação pela qual o próprio sistema de Justiça vem passando, diante da crescente complexidade técnica dos litígios.

“Os conflitos empresariais atuais exigem uma leitura que ultrapassa a interpretação normativa. Hoje, a correta compreensão dos fatos depende da análise de sistemas, registros digitais, contratos, bases de dados, fluxos financeiros e evidências técnicas. Quando esses elementos não são corretamente compreendidos, aumenta significativamente o risco de decisões baseadas em provas incompletas ou em mensurações inadequadas dos danos.”

No artigo sobre cadeia de custódia, Cruvinel sustenta que a preservação da integridade da prova digital deve ser tratada como um instituto transversal do Direito, alcançando não apenas o processo penal, mas também litígios cíveis, empresariais, tributários, administrativos e trabalhistas, nos quais e-mails, mensagens, logs, bancos de dados e documentos eletrônicos frequentemente constituem o principal conjunto probatório.

O estudo também desenvolve o conceito de juízo de admissibilidade da prova, inspirado em institutos de preservação e produção probatória consolidados no sistema norte-americano (discovery), defendendo que a confiabilidade, a integridade e a cadeia de custódia das evidências digitais sejam analisadas antes mesmo da apreciação de seu conteúdo.

Já o artigo sobre lucros cessantes propõe uma diferenciação técnica entre a efetiva perda patrimonial decorrente do inadimplemento absoluto ou da rescisão imotivada e a chamada perda de uma chance, defendendo ainda a construção doutrinária do dano teratológico como categoria destinada a identificar hipóteses em que a quantificação do prejuízo é artificialmente reduzida pela assimetria probatória existente entre as partes. Segundo o autor, a confusão entre esses institutos pode produzir significativa redução das indenizações e comprometer o princípio da reparação integral, especialmente quando quem deu causa ao dano concentra as informações necessárias para demonstrar sua real extensão.

“Quando existe rompimento injustificado de uma relação contratual ou inadimplemento absoluto, frequentemente o prejuízo pode ser demonstrado por elementos objetivos, econômicos, contábeis e técnicos. Porém, em inúmeras situações, a prova permanece sob a posse exclusiva do causador do dano, dificultando sua correta parametrização e reduzindo artificialmente a reparação. A qualidade da prova é o que transforma uma alegação em um direito economicamente demonstrável.”

À frente da EvidJuri, Cruvinel desenvolve pesquisas e trabalhos voltados à auditoria judicial, perícia técnica, reconstrução probatória, mensuração econômica de danos e análise de nulidades forenses e processuais, especialmente em disputas envolvendo tecnologia, transformação digital, sistemas corporativos, plataformas digitais e grandes contratos empresariais.

Para o especialista, a crescente digitalização da economia exigirá uma profunda revisão dos critérios tradicionalmente utilizados para formação da prova judicial.

“Estamos vivendo uma mudança de paradigma. Os litígios deixaram de ser predominantemente documentais e passaram a ser informacionais. O desafio do Direito contemporâneo não é apenas interpretar a norma, mas compreender tecnicamente os fatos que lhe dão origem.”

A incorporação desses estudos ao acervo da Biblioteca do STF reforça a crescente valorização da produção técnica especializada sobre prova digital, cadeia de custódia e mensuração econômica de danos, temas que tendem a ocupar posição cada vez mais relevante na evolução da doutrina e na qualificação do debate jurídico brasileiro.

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MP recomenda anular eleição da Mesa da Câmara de Caracol

Promotoria de Bela Vista aponta afronta a marco temporal fixado pelo STF e dá dez dias úteis para a Casa Legislativa se adequar, sob risco de ação civil pública

A 1ª Promotoria de Justiça da Comarca de Bela Vista, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), recomendou à Câmara Municipal de Caracol que anule a eleição da Mesa Diretora para o biênio 2027-2028, realizada em 9 de setembro de 2025. A recomendação é assinada pelo promotor de Justiça Gabriel Machado de Paula Lima em 17 de agosto de 2026.

Segundo o documento, o pleito interno antecipou em mais de 15 meses o início do mandato da Mesa, previsto para 2027, e contrariou o marco temporal fixado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para esse tipo de eleição. Por se tratar de recomendação administrativa, e não de decisão judicial, cabe à própria Câmara decidir se acata as providências.

O caso é tratado em Inquérito Civil instaurado na 1ª Promotoria de Justiça de Bela Vista para apurar a realização antecipada da eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Caracol para o biênio 2027-2028. A Presidência da Casa Legislativa informou à Promotoria que a eleição dos dirigentes para o biênio 2027-2028 foi formalizada em 9 de setembro de 2025, com respaldo em alterações regimentais introduzidas pela Resolução nº 004/2024 da própria Câmara.

Para a Promotoria, a realização do pleito naquela data, mais de um ano antes do início do mandato da nova Mesa, consubstanciou “antecipação de mais de 15 (quinze) meses em relação ao mandato executivo da Mesa (com início previsto para 2027), violando frontalmente o marco temporal fixado pelo Supremo Tribunal Federal, o qual impõe que o pleito somente seja deflagrado a contar de outubro de 2026”, conforme trecho da Recomendação.

O documento se apoia em precedentes do STF sobre eleições de mesas diretoras de casas legislativas. Segundo a Recomendação, o Supremo “assentou de maneira firme que as eleições destinadas à escolha da Mesa Diretora das Casas Legislativas para o segundo biênio devem guardar estrita contemporaneidade e proximidade temporal com o início do mandato respectivo, coibindo-se antecipações desmedidas que suprimam a renovação política periódica e cristalizem grupos hegemônicos em detrimento do pluralismo e da representatividade atual da Casa de Leis”.

A Promotoria cita como base o julgamento de controle concentrado de constitucionalidade nas Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) 7.733/RN, 7.734/DF, 7.732/AP e 7.737/PE.

O STF fixou nessas ações que a eleição para a Mesa Diretora do segundo biênio de uma legislatura só pode ocorrer a partir de outubro do ano imediatamente anterior ao início do mandato, parâmetro pensado para garantir que a nova diretoria reflita a composição política vigente no momento da posse, e não arranjos fechados antecipadamente por uma correlação de forças já superada.

A Promotoria recomendou ao presidente da Câmara, Marcelo Ovelar Solaliendres, e aos demais vereadores que: anulem de ofício o pleito de 9 de setembro de 2025 e os atos dele decorrentes; promovam a adequação do Regimento Interno, revogando ou alterando os dispositivos da Resolução nº 004/2024, para constar expressamente que a eleição da Mesa Diretora do segundo biênio só pode ocorrer a partir de outubro do ano anterior ao início do mandato; abstenham-se de realizar nova votação para a Mesa do biênio 2027-2028 antes de outubro de 2026; e deem ampla publicidade à Recomendação, com leitura em sessão plenária e divulgação no site oficial da Câmara.

Recomendação nº 0001/2026/PJ/BVT/SAJ/MP – 1ª Promotoria de Justiça da Comarca de Bela Vista

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Justiça concede liberdade provisória a mulher investigada por simular o próprio sequestro

A decisão é do juiz Leonardo Vieira Rocha Damasceno, da Central de Audiências de Custódia da Comarca de Belo Horizonte (Crédito: Marcelo Almeida / TJMG)


A decisão foi proferida após audiência de custódia nesta quarta-feira (26/8)


O juiz Leonardo Vieira Rocha Damasceno, da Central de Audiências de Custódia da Comarca de Belo Horizonte (Ceac-BH), concedeu liberdade provisória, sem fiança, a Aline Alves Quirino, presa em flagrante em Belo Horizonte sob suspeita de participação em uma falsa situação de sequestro criada para obter dinheiro de familiares. A decisão foi proferida após audiência de custódia nesta quarta-feira (26/8). 

 

A mulher havia sido autuada inicialmente pelo crime de extorsão, previsto no artigo 158 do Código Penal. Na audiência de custódia, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) entendeu que a narrativa apresentada nos autos se amolda, em tese, ao crime de estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal.

 

O magistrado acolheu a alteração da capitulação jurídica indicada pelo MPMG e, ao reconhecer a legalidade da prisão e homologar o flagrante, decidiu que não havia, naquele momento, elementos suficientes para justificar a manutenção da prisão preventiva.
 


Segundo os depoimentos reunidos no processo, ao sair de casa na manhã de 23/8, a mulher afirmou ao marido que iria trabalhar como cabeleireira. Mais tarde, ela publicou em seu status do WhatsApp uma mensagem indicando que precisava de ajuda. Ela também teria enviado mensagens à irmã com a expressão “irmã, irmã”.

 

Cerca de meia hora depois, a irmã da acusada passou a receber mensagens de outro número. O interlocutor afirmava que Aline Quirino estava em poder de pessoas que exigiam dinheiro para libertá-la.

 

Inicialmente, a quantia exigida era de R$ 7 mil, mas posteriormente o valor subiu para R$ 14 mil. As mensagens, de acordo com os autos, afirmavam que a suposta sequestrada estava bem e que não seria machucada caso o pagamento fosse realizado. Em outras comunicações, contudo, os supostos sequestradores fizeram ameaças e disseram que poderiam feri-la caso o dinheiro não fosse entregue.

 

A irmã procurou ajuda de familiares, mas não conseguiu reunir o valor. Ela também apresentou à Polícia Militar o histórico das conversas e informou ter recebido diferentes chaves Pix para um eventual pagamento. Nenhum valor chegou a ser transferido.

 

O marido da acusada afirmou à polícia que passou a desconfiar de que o sequestro não havia ocorrido de fato. Segundo ele, a esposa teria histórico de dificuldades financeiras, de aquisição de dívidas e de pedidos de empréstimos. Relatou ainda que já havia contraído empréstimos para quitar dívidas atribuídas a ela. O casal está junto há 19 anos.

 

A irmã também afirmou que Aline Quirino vinha se comportando de forma diferente nos meses anteriores ao suposto sequestro, com momentos frequentes de nervosismo e de choro.

 

Na decisão, o juiz Leonardo Damasceno homologou a prisão em flagrante e reconheceu a existência de elementos que, em princípio, indicavam materialidade e autoria do delito investigado, entretanto, não significavam a manutenção da prisão.

 

O MPMG pediu a soltura de acusada, e a defesa acompanhou o pedido. O juiz destacou ainda que a investigada é primária e não possui outros registros criminais.

 

Na avaliação judicial, a prisão preventiva é uma medida excepcional e, naquele momento, não havia demonstração de que a custódia fosse necessária para proteger a ordem pública ou garantir a instrução criminal.

 

Diante disso, Aline Quirino recebeu liberdade provisória sem fiança, mas deverá cumprir uma série de medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica; comparecimento periódico perante a equipe multidisciplinar especializada; comparecimento mensal em juízo durante seis meses; recolhimento domiciliar das 20h às 6h nos dias úteis; e recolhimento domiciliar integral aos sábados, domingos e feriados.

 

A investigada, portanto, vai responder ao suposto crime em liberdade, sob medidas cautelares, enquanto os fatos estão sendo apurados e eventual responsabilidade criminal será analisada no decorrer do processo.

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Vazamento de dados de saúde amplia riscos para pacientes mesmo depois do fim de um ataque cibernético

Caso envolvendo registros de aproximadamente 500 mil pessoas mostra por que prontuários, diagnósticos e históricos médicos exigem respostas mais rigorosas do que outros dados pessoais

Um incidente cibernético pode ser contido em poucas horas ou dias, mas os seus efeitos sobre pacientes podem permanecer por anos. Diferentemente de uma senha, que pode ser alterada após um vazamento, informações como diagnósticos, prescrições, internações, exames e históricos médicos acompanham uma pessoa por toda a vida e podem ser utilizadas em fraudes, extorsões, discriminação ou ataques direcionados.

O alerta ganhou força após a abertura de uma investigação federal envolvendo o Instituto Saúde e Cidadania (Isac), organização responsável pela gestão de unidades públicas de saúde em diferentes estados. O caso está relacionado a um ataque de ransomware que teria atingido aproximadamente 500 mil registros, incluindo informações de crianças, adolescentes e idosos.

Para o advogado Bruno Fuentes, especialista em Direito de TI e Cibersegurança e associado do GMP G&C Advogados Associados, o tratamento jurídico de um incidente dessa natureza não deve se limitar à discussão sobre a confirmação do vazamento. “Independentemente de posteriormente se confirmar ou não a exfiltração dos dados, a organização precisa conter o incidente, preservar evidências, investigar sua extensão, revisar credenciais e restaurar os sistemas de forma segura. Quando estão envolvidos dados de saúde, o grau de diligência esperado é ainda maior”, afirma.

A Lei Geral de Proteção de Dados classifica as informações de saúde como dados pessoais sensíveis. Isso ocorre porque seu uso indevido pode gerar consequências especialmente graves para o titular. Um histórico clínico exposto pode fornecer elementos para golpes personalizados, tentativas de extorsão, discriminação profissional ou securitária e abordagens fraudulentas que exploram condições médicas conhecidas.

“Prontuários, diagnósticos e exames possuem elevado valor econômico porque oferecem um retrato detalhado da vida do paciente. O risco não termina quando o sistema volta a funcionar. Essas informações podem continuar circulando e sendo exploradas por terceiros”, explica Fuentes. Por isso, a resposta a um ataque não deve se limitar à recuperação dos servidores. “É necessário identificar quais informações foram afetadas, quais grupos estão mais expostos e quais medidas podem reduzir danos futuros”, ressalta o especialista.

Uma das principais obrigações previstas na LGPD é a comunicação de incidentes capazes de gerar risco ou dano relevante. Dependendo das circunstâncias, a organização deve informar tanto a Autoridade Nacional de Proteção de Dados quanto as pessoas afetadas. Essa comunicação precisa trazer elementos suficientes para que o titular compreenda o ocorrido e adote medidas de proteção. Um aviso genérico, sem explicar a natureza das informações atingidas ou os riscos envolvidos, pode não cumprir adequadamente essa função.

“A transparência não deve ser tratada como uma etapa meramente formal. O paciente precisa saber quais categorias de dados podem ter sido comprometidas, quando o incidente ocorreu e quais providências estão sendo tomadas”, destaca o advogado.

No caso em investigação, a ANPD analisa, entre outros pontos, se houve comunicação adequada às pessoas atingidas e se foram demonstradas medidas técnicas e administrativas compatíveis com os riscos do tratamento realizado.

Ausência de registros dificulta dimensionar o ataque

Além de impedir acessos indevidos, uma estrutura de segurança precisa permitir que a instituição reconstrua o caminho percorrido pelos invasores. Registros de atividade, conhecidos como logs, são essenciais para identificar quando o ataque começou, quais sistemas foram acessados e se houve cópia ou movimentação de informações.

Sem esses elementos, torna-se mais difícil mensurar o alcance do incidente e comprovar as medidas adotadas antes e depois da invasão. “Uma organização precisa estar preparada não apenas para tentar evitar ataques, mas também para demonstrar tecnicamente o que aconteceu. A capacidade de investigação e prestação de contas faz parte da conformidade com a LGPD”, afirma Fuentes.

O fato de uma empresa ou instituição ter sido vítima de criminosos digitais não gera automaticamente sua responsabilização. A análise jurídica considera fatores como as medidas preventivas existentes, a resposta adotada, a comunicação do incidente e a capacidade de comprovar conformidade.

Na esfera administrativa, a LGPD prevê medidas que vão de advertências e multas até bloqueio, eliminação de dados e restrições às atividades de tratamento. Também podem surgir ações individuais ou coletivas caso sejam demonstrados danos aos titulares.

Prevenção precisa fazer parte da operação

Para o setor da saúde, segurança digital não pode ser vista apenas como uma atribuição do departamento de tecnologia. Ela precisa integrar a governança da instituição e envolver dirigentes, profissionais assistenciais, fornecedores e prestadores de serviços.

Entre as medidas recomendadas estão controles rigorosos de acesso, autenticação reforçada, criptografia, atualização dos sistemas, auditorias periódicas, monitoramento contínuo e treinamento das equipes. Também é necessário manter um plano de resposta a incidentes que defina responsabilidades, canais de comunicação, procedimentos de contenção e formas de preservar provas.

“Não basta adquirir ferramentas. A instituição precisa saber quem acessa cada informação, por qual motivo, durante quanto tempo e como reagir quando algo foge do padrão”, completa o especialista.

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Sorveteria Dallô vence “guerra” contra Dale e poderá usar marca

3ª Câmara Cível entendeu que comparação visual usada para conceder a tutela de urgência se apoiou em variação gráfica não coberta pelo registro de marca da concorrente

A 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) derrubou, por unanimidade, a decisão de primeiro grau que havia proibido a empresa Tavares & Leonel Ltda. de usar a expressão “DALLÔ SORVETES” em seus produtos e materiais de divulgação. O acórdão, relatado pelo desembargador Paulo Alberto de Oliveira e liberado nos autos em 20 de julho de 2026, deu provimento ao agravo de instrumento da empresa e revogou a tutela de urgência concedida em favor da Dale Sorvetes Ltda, que alegava uso indevido de sua marca.

A ação de origem, de abstenção de uso indevido de marca cumulada com indenização por danos, foi ajuizada pela Dale Sorvetes Ltda-EPP contra a Tavares & Leonel Ltda. perante a 10ª Vara Cível da Comarca de Campo Grande. 

Segundo a petição inicial, a Dale é titular de registros marcários junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e sustenta que a ré passou a utilizar a expressão “DALLÔ SORVETES”, com suposta semelhança fonética e visual capaz de gerar confusão no mercado consumidor. A autora pediu a concessão de tutela de urgência para a cessação imediata do uso da expressão pela ré, além da condenação ao pagamento de R$ 15.000,00 em danos morais.

A juíza Sueli Garcia, da 10ª Vara Cível, deferiu a tutela de urgência, determinando que a ré se abstivesse de usar “DALLÔ SORVETES” em produtos, serviços e qualquer veiculação, em meios físicos e virtuais, sob multa diária de R$ 500,00, limitada a R$ 5.000,00. Na decisão, a magistrada registrou haver “identidade nas cores predominantes (branco e vermelho)”, “semelhança no sinal gráfico” e proximidade fonética entre as marcas, além de as empresas atuarem no mesmo ramo e no mesmo estado.

A Tavares & Leonel recorreu por agravo de instrumento, alegando ausência dos requisitos do artigo 300 do Código de Processo Civil. A defesa da empresa sustentou que a marca invocada pela concorrente tem “reduzido grau de distintividade”, por estar inserida em “campo nominativo saturado”, hipótese de marca fraca, e que a comparação visual usada na decisão de primeiro grau se baseou em sinal gráfico não registrado no INPI. 

Argumentou ainda a ausência de perigo de dano concreto, já que não houve oposição administrativa aos pedidos de registro da agravante, e apontou o caráter irreversível da medida, concedida sem exigência de caução. Antes do julgamento do mérito, o relator já havia concedido efeito suspensivo ao recurso, suspendendo a eficácia da liminar.

O relator considerou que os elementos dos autos não são suficientes para justificar a manutenção da tutela de urgência. Segundo o voto, o certificado do INPI juntado aos autos mostra que o registro de marca invocado pela autora corresponde a um logotipo em formato ovalado, com limitação expressa quanto à exclusividade da palavra “sorvetes”, o que, para o desembargador, “reduz o alcance da proteção marcária e impõe maior rigor na análise de eventual colidência”.

A decisão aponta que a imagem usada como parâmetro de comparação na decisão de primeiro grau “não possui o nível de semelhança alegada pela autora-agravada” e que a análise visual foi construída, em parte, a partir de “variações gráficas não comprovadamente protegidas” pelo registro, o que, segundo o relator, fragiliza a conclusão sobre a similaridade entre as marcas nesta fase do processo.

O voto também observa que a autora invoca os artigos 129, 130, 189 e 209 da Lei de Propriedade Industrial e alega proteção ao conjunto-imagem, mas classifica a controvérsia como de “complexidade técnica incompatível com solução definitiva nesta fase inicial do processo”, por envolver discussão sobre a extensão da proteção dos registros existentes, os efeitos jurídicos de pedidos de registro ainda pendentes de exame administrativo e a eventual proteção autônoma do conjunto-imagem.

Sobre o risco de dano à ré, o relator pontuou que a execução imediata da decisão agravada imporia à empresa “providências de significativa repercussão econômica e operacional”, alteração de identidade visual, substituição de materiais publicitários, mudança de embalagens, adequação de fachadas e reformulação de presença digital, com “evidente potencial de gerar efeitos de difícil reversão prática”.

A decisão de segundo grau reforma a liminar concedida em primeira instância e confirma o efeito suspensivo já em vigor desde a decisão monocrática do relator. 

O processo de origem segue tramitando na 10ª Vara Cível de Campo Grande para instrução e julgamento do mérito da ação de abstenção de uso de marca e indenização por danos morais.

TJMS: Acórdão do Agravo de Instrumento nº 1410898-72.2026.8.12.0000 (TJMS, 3ª Câmara Cível, rel. Des. Paulo Alberto de Oliveira, julgamento em sessão permanente e virtual)

Presidiu a sessão o Des. Odemilson Roberto Castro Fassa; tomaram parte no julgamento o relator, o Juiz Fábio Possik Salamene e o Des. Marco André Nogueira Hanson.

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