
Interceptação do WhatsApp mostra que Hoffman D’Ávila recebeu videochamada do advogado às 5h01 do dia da operação, deixou a casa às 5h18 e as equipes do GAECO chegaram às 5h30
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul denunciou à Justiça o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-titular da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), e o advogado criminalista Amilton Ferreira de Almeida pelo crime de obstrução de investigação envolvendo organização criminosa. Segundo a peça do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), protocolada no dia 14 de outubro na 2ª Vara Criminal Residual da Capital, o advogado avisou o delegado por telefone do início da Operação Infiltrados meia hora antes de os policiais baterem à porta de sua casa, no Carandá Bosque, tempo suficiente para que ele saísse levando o celular e outras provas.
A denúncia é a segunda fase da operação, batizada de Obstructio. A primeira, deflagrada em 24 de setembro, cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, 2 de prisão temporária e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos contra policiais civis acusados de desviar drogas apreendidas e devolvê-las ao tráfico, por meio do traficante Lucas da Silva dos Santos, o “LK”. Hoffman, que chefiou a Denar por anos e estava lotado como titular da Delegacia de Terenos, era um dos principais alvos. Sua casa foi encontrada vazia.
A investigacao apontou que a própria interceptação do WhatsApp do delegado, autorizada pela justiça, registraria o vazamento em tempo real.
MINUTO A MINUTO
De acordo com os registros fornecidos pelo WhatsApp e anexados à denúncia, as equipes se reuniram na sede do GAECO, no Jardim Veraneio dentro do Parque do Poderes, a partir das 3h30 e começaram a sair para os endereços dos alvos às 5h. Exatamente às 5h00min32s, o número (67) 99200-2875, do advogado Amilton, tentou uma chamada de áudio para o telefone de Hoffman, que foi rejeitada. Às 5h01min30s, o mesmo número fez uma chamada de vídeo, atendida, que durou 1 minuto e 12 segundos.
Para o Ministério Público, foi nessa ligação que o delegado soube da operação. A partir das 5h04, Hoffman passou a trocar mensagens e chamadas de vídeo com um terceiro número, (67) 99196-5501, registrado em nome de outra pessoa, uma videochamada de 4 minutos e 27 segundos entre 5h08 e 5h12. A denúncia afirma que esse interlocutor ajudou o delegado “na ocultação de provas”.
A câmera de segurança de um vizinho registrou o Honda HR-V de Hoffman saindo da garagem por volta das 5h18. As equipes chegaram à Rua Estrela do Norte às 5h24 e receberam autorização para entrar às 5h30, no mesmo minuto, o carro do delegado passava por um radar na Rua Ceará, segundo o Sistema Alerta Brasil, do Ministério da Justiça.

Um minuto depois de a polícia chegar à sua rua, às 5h25, foi Hoffman quem ligou em vídeo para o advogado, por 1 minuto e 55 segundos. Para o GAECO, o delegado “estava monitorando a diligência em tempo real, ao que tudo indica por meio do sistema de câmeras da residência”. Seguiram-se outra videochamada com o número não identificado (3 minutos e 16 segundos) e uma última, de 23 segundos, do advogado para o delegado, às 5h38.
NA MADRUGADA E DE TERNO
Às 5h45, cerca de 15 minutos após o início da busca, a camionete Toyota Hilux do advogado estacionou na rua do delegado. Amilton desceu de terno e gravata, apresentou-se como defensor de Hoffman e acompanhou a busca. A denúncia observa que ele mora na Vila Albuquerque, a 11 quilômetros dali.
Os radares da cidade, porém, mostram que o advogado já estava na rua muito antes. A Hilux foi flagrada às 4h38 na Avenida Olavo Vilela de Andrade; às 4h52 e 4h54 na Avenida Ministro João Arinos; e às 4h57 na Avenida do Poeta, no Jardim Veraneio, bairro onde fica a sede do GAECO, “apenas três minutos antes” da primeira tentativa de ligação para o delegado, destaca a peça. Às 5h04, o veículo já descia a Afonso Pena em direção ao centro.
Interrogados, segundo a denúncia, o advogado atribuiu a saída de casa de madrugada, de terno, a uma “intuição” e disse ter ligado para o delegado para “tomar um café”. Hoffman afirmou que não entregou o celular para “preservar a sua intimidade”. Para os promotores, as versões são “absolutamente inverossímeis”.
Cadê o celular?
Hoffman se entregou à Corregedoria da Polícia Civil no fim da tarde do dia 24, sem o telefone, apesar de o mandado determinar expressamente a apreensão do aparelho e a quebra do sigilo dos dados, inclusive mensagens apagadas. Para o GAECO, o delegado “ocultou deliberadamente” o celular porque ele continha informações sobre o grupo criminoso. A denúncia lembra que o contato “Hoffman” consta da agenda telefônica de “LK” e que o próprio delegado, em interrogatório, admitiu manter contato direto com o traficante.
Os dois foram denunciados pela Lei das Organizações Criminosas, que pune quem “impede ou, de qualquer forma, embaraça” investigação sobre organização criminosa, com pena de 3 a 8 anos de reclusão. O MP pede ainda a perda do cargo de delegado de Hoffman e arrola cinco testemunhas, entre elas o corregedor-geral da Polícia Civil, Clever José Fante Esteves.
A peça cita como precedente a Operação Oiketicus, em que o Tribunal de Justiça de MS manteve, por unanimidade, a condenação de um policial militar, que era lotado na Casa Militar do governo do Estado, que se desfez do celular durante a busca e apreensão. “O simples fato de o tipo penal não prever expressamente a conduta de ‘extravio de aparelho celular’ não acarreta na sua atipicidade”, diz o acórdão de 2021 citado na denúncia.

A denúncia foi oferecida agora, explica o GAECO, “em razão da existência de investigados presos”, mas as análises prosseguem “com o intuito de identificar os demais envolvidos”, entre eles, “outros agentes ainda não identificados” que teriam agido em “unidade de desígnios” com os dois denunciados.
