26 de outubro de 2026

Vazamento saiu de dentro da operação, aponta GAECO; quem avisou o advogado ainda é incógnita

Carro de Amilton Ferreira de Almeida rodou pelo Jardim Veraneio, onde fica a sede do MP, três minutos antes de ligar para o delegado; promotores dizem que informação escapou depois da chegada das equipes de apoio da PM e da Corregedoria

A denúncia da segunda fase da Operação Infiltrados responde quem avisou o delegado Hoffman D’Ávila de que seria preso, mas deixa em aberto a pergunta que interessa à cúpula da segurança pública do Estado: quem avisou o advogado. O GAECO sustenta que o criminalista Amilton Ferreira de Almeida obteve a informação sigilosa “ao que tudo indica após a chegada na sede do GAECO das diversas equipes externas que participaram das diligências” e cita nominalmente “grupamentos específicos da Polícia Militar e da Corregedoria da Polícia Civil”.

A janela é estreita. As equipes se concentraram na sede do grupo, no Jardim Veraneio, a partir das 3h30 da madrugada do dia 24 de setembro. Às 4h38, um radar do Sistema Alerta Brasil, do Ministério da Justiça, já flagrava a Hilux cinza do advogado, placa QAM3C47, em circulação na Avenida Olavo Vilela de Andrade. Às 4h57, o veículo passou pela Avenida do Poeta, no Jardim Veraneio. Às 5h, o telefone do advogado fez a primeira tentativa de chamada para o delegado.

O horário dos deslocamentos coincide com o instante em que o cerco começou a sair do papel. A denúncia registra que as equipes iniciaram o deslocamento para os endereços dos alvos exatamente às 5h.

DEZ POLICIAIS ALVOS

A peça acrescenta um dado que amplia o alcance do vazamento: a operação contava com “inúmeros policiais civis da Corregedoria” e, além de Hoffman, “outros 9 policiais civis foram alvos”. Nenhum dos outros deixou de ser localizado, só o delegado Hoffman.

Screenshot

Um segundo canal de comunicação do delegado naquela madrugada permanece sem identificao. O número xxxx-5501, cadastrado em nome de terceiro, trocou quatro mensagens de texto com Hoffman entre 5h04 e 5h05, as primeiras enviadas de um Android segundos depois de o delegado desligar com o advogado, fez uma videochamada de 4 minutos e 27 segundos às 5h07, mandou nova mensagem às 5h13 e recebeu outra videochamada do delegado, de 3 minutos e 16 segundos, às 5h32, quando a polícia já estava dentro da casa. Para o GAECO, o dono dessa linha “auxiliou” Hoffman “na ocultação de provas” e “certamente integra, coopera ou comercializa com a organização criminosa”.

A interceptação, ressalva o próprio relatório técnico anexado à denúncia, “se limita aos metadados”: prova a existência, o horário, a direção e a duração das comunicações, não o que foi dito. A acusação de que o advogado transmitiu o aviso da operação é, portanto, inferência dos promotores a partir da cronologia, inferência que eles consideram “evidente” diante do que veio em seguida: a saída do delegado de casa às 5h18, doze minutos antes de a polícia entrar.

A denúncia foi oferecida contra os dois, mas o texto fala em “outros agentes ainda não identificados” e avisa que as análises continuam.

Vazamento saiu de dentro da operação, aponta GAECO; quem avisou o advogado ainda é incógnita Read More »

MP denuncia delegado e advogado por obstruir operacão; alerta chegou 30 minutos antes da polícia

Carro do delegado saindo da casa minutos antes do GAECO chegar – Reproducao

Interceptação do WhatsApp mostra que Hoffman D’Ávila recebeu videochamada do advogado às 5h01 do dia da operação, deixou a casa às 5h18 e as equipes do GAECO chegaram às 5h30

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul denunciou à Justiça o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-titular da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), e o advogado criminalista Amilton Ferreira de Almeida pelo crime de obstrução de investigação envolvendo organização criminosa. Segundo a peça do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), protocolada no dia 14 de outubro na 2ª Vara Criminal Residual da Capital, o advogado avisou o delegado por telefone do início da Operação Infiltrados meia hora antes de os policiais baterem à porta de sua casa, no Carandá Bosque, tempo suficiente para que ele saísse levando o celular e outras provas.

A denúncia é a segunda fase da operação, batizada de Obstructio. A primeira, deflagrada em 24 de setembro, cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, 2 de prisão temporária e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos contra policiais civis acusados de desviar drogas apreendidas e devolvê-las ao tráfico, por meio do traficante Lucas da Silva dos Santos, o “LK”. Hoffman, que chefiou a Denar por anos e estava lotado como titular da Delegacia de Terenos, era um dos principais alvos. Sua casa foi encontrada vazia.

A investigacao apontou que a própria interceptação do WhatsApp do delegado, autorizada pela justiça, registraria o vazamento em tempo real.

MINUTO A MINUTO

De acordo com os registros fornecidos pelo WhatsApp e anexados à denúncia, as equipes se reuniram na sede do GAECO, no Jardim Veraneio dentro do Parque do Poderes, a partir das 3h30 e começaram a sair para os endereços dos alvos às 5h. Exatamente às 5h00min32s, o número (67) 99200-2875, do advogado Amilton, tentou uma chamada de áudio para o telefone de Hoffman, que foi rejeitada. Às 5h01min30s, o mesmo número fez uma chamada de vídeo, atendida, que durou 1 minuto e 12 segundos.

Para o Ministério Público, foi nessa ligação que o delegado soube da operação. A partir das 5h04, Hoffman passou a trocar mensagens e chamadas de vídeo com um terceiro número, (67) 99196-5501, registrado em nome de outra pessoa, uma videochamada de 4 minutos e 27 segundos entre 5h08 e 5h12. A denúncia afirma que esse interlocutor ajudou o delegado “na ocultação de provas”.

A câmera de segurança de um vizinho registrou o Honda HR-V de Hoffman saindo da garagem por volta das 5h18. As equipes chegaram à Rua Estrela do Norte às 5h24 e receberam autorização para entrar às 5h30, no mesmo minuto, o carro do delegado passava por um radar na Rua Ceará, segundo o Sistema Alerta Brasil, do Ministério da Justiça.

Screenshot

Um minuto depois de a polícia chegar à sua rua, às 5h25, foi Hoffman quem ligou em vídeo para o advogado, por 1 minuto e 55 segundos. Para o GAECO, o delegado “estava monitorando a diligência em tempo real, ao que tudo indica por meio do sistema de câmeras da residência”. Seguiram-se outra videochamada com o número não identificado (3 minutos e 16 segundos) e uma última, de 23 segundos, do advogado para o delegado, às 5h38.

NA MADRUGADA E DE TERNO

Às 5h45, cerca de 15 minutos após o início da busca, a camionete Toyota Hilux do advogado estacionou na rua do delegado. Amilton desceu de terno e gravata, apresentou-se como defensor de Hoffman e acompanhou a busca. A denúncia observa que ele mora na Vila Albuquerque, a 11 quilômetros dali.

Os radares da cidade, porém, mostram que o advogado já estava na rua muito antes. A Hilux foi flagrada às 4h38 na Avenida Olavo Vilela de Andrade; às 4h52 e 4h54 na Avenida Ministro João Arinos; e às 4h57 na Avenida do Poeta, no Jardim Veraneio, bairro onde fica a sede do GAECO, “apenas três minutos antes” da primeira tentativa de ligação para o delegado, destaca a peça. Às 5h04, o veículo já descia a Afonso Pena em direção ao centro.

Interrogados, segundo a denúncia, o advogado atribuiu a saída de casa de madrugada, de terno, a uma “intuição” e disse ter ligado para o delegado para “tomar um café”. Hoffman afirmou que não entregou o celular para “preservar a sua intimidade”. Para os promotores, as versões são “absolutamente inverossímeis”.

Cadê o celular?

Hoffman se entregou à Corregedoria da Polícia Civil no fim da tarde do dia 24, sem o telefone, apesar de o mandado determinar expressamente a apreensão do aparelho e a quebra do sigilo dos dados, inclusive mensagens apagadas. Para o GAECO, o delegado “ocultou deliberadamente” o celular porque ele continha informações sobre o grupo criminoso. A denúncia lembra que o contato “Hoffman” consta da agenda telefônica de “LK” e que o próprio delegado, em interrogatório, admitiu manter contato direto com o traficante.

Os dois foram denunciados pela Lei das Organizações Criminosas, que pune quem “impede ou, de qualquer forma, embaraça” investigação sobre organização criminosa, com pena de 3 a 8 anos de reclusão. O MP pede ainda a perda do cargo de delegado de Hoffman e arrola cinco testemunhas, entre elas o corregedor-geral da Polícia Civil, Clever José Fante Esteves.

A peça cita como precedente a Operação Oiketicus, em que o Tribunal de Justiça de MS manteve, por unanimidade, a condenação de um policial militar, que era lotado na Casa Militar do governo do Estado, que se desfez do celular durante a busca e apreensão. “O simples fato de o tipo penal não prever expressamente a conduta de ‘extravio de aparelho celular’ não acarreta na sua atipicidade”, diz o acórdão de 2021 citado na denúncia.

Hoffman durante apresentacao de apreensao de drogas, na Denar – Reproducao

A denúncia foi oferecida agora, explica o GAECO, “em razão da existência de investigados presos”, mas as análises prosseguem “com o intuito de identificar os demais envolvidos”, entre eles, “outros agentes ainda não identificados” que teriam agido em “unidade de desígnios” com os dois denunciados.

MP denuncia delegado e advogado por obstruir operacão; alerta chegou 30 minutos antes da polícia Read More »