Entre curtidas e votos: quem da direita sul-mato-grossense realmente fala com o eleitor do MS?

Levantamento com ferramenta de análise de redes sociais revela que número de seguidores pode enganar e que o candidato com menos seguidores pode ser o com mais influência real

Numa época em que seguidores viraram moeda de prestígio político, um relatório da plataforma Modash, ferramenta usada por agências de marketing digital para auditar perfis de influenciadores, coloca em xeque a narrativa de que quem tem mais seguidor tem mais voto. 

Ao comparar os perfis no Instagram de cinco pré-candidatos de direita a Câmara Federal por Mato Grosso do Sul, os dados apontam para uma conclusão que vai contra o senso comum: o candidato com menor número de seguidores é o que tem a audiência mais enraizada no estado, e o engajamento mais genuíno do grupo.

O relatório, extraído na quarta-feira (10), analisou os perfis de Edson Giroto (@giroto.e), Capitão Contar (@capitaocontar), Dr. Luiz Ovando (@drluizovando), Marcos Pollon (@pollonms) e Rodolfo Nogueira (@rodolfonogueirams).

Menos que é mais 

Edson Giroto, pré-candidato a deputado federal pelo PL, ex-secretário estadual de obras e engenheiro civil, tem 5,2 mil seguidores no Instagram, o menor número do grupo analisado. Mas a ferramenta Modash registra para o seu perfil uma taxa de engajamento de 1,94%, acima da média para criadores do seu tamanho, segundo a própria plataforma.

Para efeito de comparação: Capitão Contar (PL), ex-deputado estadual e que foi candidato ao governo em 2022, com 110 mil seguidores, tem taxa de 0,46%. Dr. Luiz Ovando (PP), deputado federal com 91 mil seguidores, registra 0,10%,  abaixo da média, de acordo com o relatório. Pollon, o deputado federal mais votado do estado em 2022, com 373 mil seguidores, também aparece com 0,46%.

Em linguagem mais direta: a cada 100 seguidores que veem o conteúdo de Giroto, quase dois interagem de forma mensurável. No caso de Ovando, menos de um décimo de um por cento da audiência responde. Curtida média de 98 likes para 91 mil seguidores é o tipo de dado que indica uma base inflada ou desengajada.

O número de seguidores virou vaidade. O que importa para o algoritmo, e para o eleitor que vai ver o conteúdo, é se as pessoas estão reagindo.

Seguidores falsos: o fantasma das redes 

O ponto mais delicado do levantamento envolve a credibilidade das bases digitais. O Modash não se baseia em suposição para classificar seguidores como suspeitos, usa critérios comportamentais objetivos. A principal categoria é a de “seguidores de massa suspeitos”: contas que seguem um número anormalmente alto de perfis, padrão típico de bots de follow-for-follow e de serviços que vendem seguidores em escala.

Os dados revelam disparidades expressivas:

  • Giroto: 8,67% de seguidores suspeitos — o menor índice do grupo
  • Ovando: 16,44%
  • Contar: 16,63%
  • Pollon: 18,10%
  • Rodolfo Nogueira: 79,41%

Para entender por que o perfil de Rodolfo Nogueira chega a esse percentual, um dado do relatório é revelador: o Modash mede a “alcançabilidade da audiência”, ou seja, quantas outras contas cada seguidor acompanha. Quanto mais contas uma pessoa segue, menor a chance de que veja ou interaja com qualquer conteúdo específico. É o oposto de um seguidor engajado.

No perfil de Rodolfo, 88,96% dos seguidores acompanham mais de 1.500 outras contas. Apenas 4,57% seguem menos de 500 perfis, que seria o padrão de um seguidor genuinamente interessado no criador. Decompondo a base: 77,57% são classificados como “suspicious mass followers” e 1,84% como “suspicious accounts”, totalizando os 79,41%. Isso também se deve ao editorial de seu perfil adotar temas que puxam o engajamento ideológico total, ignorando questões locais. 

Para comparação, o perfil de Giroto tem perfil inverso: 39,64% dos seus seguidores acompanham menos de 500 contas, indicativo de uma audiência seletiva, que escolheu segui-lo de forma ativa.

O relatório traz outros indicadores que reforçam o padrão. Entre os seguidores de Rodolfo aparecem Índia (2,04%) e Indonésia (1,04%), países amplamente utilizados por serviços de venda de seguidores, e 7,14% de seguidores que interagem em inglês, proporção incomum para um deputado federal por um estado do centro-oeste brasileiro. Dos demais candidatos, nenhum chega a 1% de seguidores em inglês. Giroto tem 0,55%.

O Modash não afirma que seguidores foram comprados, a plataforma classifica com base em comportamento algorítmico. A origem desses perfis, se por compra deliberada ou por crescimento orgânico em plataformas com alto índice de bots, não pode ser determinada pelo relatório. O que os dados indicam, objetivamente, é que 80% da base de seguidores de Rodolfo Nogueira não apresenta comportamento compatível com usuários reais e engajados. Ou, que age por movimento de manada, apenas interagindo em posts que trazem conteúdo ligado a gatilhos, como falas sobre o MST ou Flávio Bolsonaro.

Quem fala com quem vota em MS

Para além do engajamento, o dado mais estratégico do relatório é a distribuição geográfica dos seguidores, especialmente a concentração em Campo Grande, onde se concentra mais de um terço do eleitorado do estado.

Candidato% de seguidores em Campo Grande
Edson Giroto63,52%
Dr. Luiz Ovando54,61%
Capitão Contar43,37%
Rodolfo NogueiraNão informado (CG fora do top de cidades)
Marcos Pollon2,50%

Giroto tem quase dois terços dos seus seguidores na capital. Somando outras cidades sul-mato-grossenses identificadas nos dados, Corumbá, Dourados, Aquidauana, o perfil sugere que aproximadamente dois terços da sua base total estão dentro do MS.

Pollon, por outro lado, apesar dos 373 mil seguidores, tem São Paulo como sua principal cidade (6,92%), seguida de Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Campo Grande aparece apenas em quinto lugar, com 2,5% da audiência. O perfil é coerente com o de um influenciador com alcance nacional, mas que não necessariamente converte isso em capital político dentro do estado.

Para deputado federal por um estado, o que importa é quem está no colégio eleitoral. Ter 300 mil seguidores no Brasil inteiro sem ancoragem no estado é o equivalente digital de um palanque vazio no dia da eleição.

Faixa etária do voto

Outro elemento que diferencia Giroto no comparativo é o perfil etário dos seus seguidores. Segundo o Modash, 70% da sua audiência tem entre 35 e 64 anos — a faixa com maior comparecimento às urnas no Brasil, segundo dados do TSE.

Rodolfo Nogueira apresenta o perfil etário mais jovem do grupo: 50,5% dos seguidores têm entre 13 e 24 anos, e outros 36,65% têm entre 25 e 34 anos. A audiência jovem é típica de criadores de conteúdo de entretenimento político, com alta viralidade, mas conversão eleitoral historicamente mais baixa para cargos legislativos.

O levantamento coloca em evidência um paradoxo recorrente na comunicação política digital: o candidato com o perfil aparentemente mais modesto pode ser o com maior capital eleitoral digital efetivo, quando os dados são filtrados por autenticidade, geografia e faixa etária do eleitor.

Giroto tem 5,2 mil seguidores. Pollon tem 373 mil. Mas enquanto dois terços da audiência de Giroto estão no MS, o número equivalente da audiência de Pollon que vive em Campo Grande é de pouco mais de 9 mil pessoas, apenas 2,5 mil a mais do que toda a base de Giroto. Em termos de influência digital diretamente conversível em votos no estado, a diferença entre os dois é menor do que os números brutos sugerem.

A métrica correta para campanha política não é seguidores totais é seguidores reais dentro do colégio eleitoral, multiplicados pela taxa de engajamento. 

FOTOS: Pollon Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

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