mjsp

R$ 25 milhões para segurança em MS mofam no papel enquanto violência dispara

Brasília/Campo Grande

Enquanto 38% dos brasileiros apontam a violência como a principal preocupação do país, um recorde histórico que supera a economia e a corrupção, e 70% da população sente que o crime organizado avançou no último ano, milhões de reais destinados a equipar as polícias de Mato Grosso do Sul estão presos em falhas de planejamento e lentidão administrativa.

Documentos do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) revelam que o Convênio nº 932538/2022, assinado em agosto de 2022 para a compra de viaturas, atravessou três anos com 0% de execução financeira. O dinheiro ficou parado, a inflação corroeu o poder de compra e o estado apenas metade dos veículos previstos inicialmente.

O processo teve início em 22 de agosto de 2022, com a promessa de injetar R$ 25,9 milhões na modernização da frota da Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros. O objetivo era reduzir o déficit de 432 viaturas no estado.

Passados 770 dias da assinatura, prazo em que o convênio já deveria estar encerrado, o Ministério da Justiça atestou que nem um centavo havia sido utilizado. A liberação da primeira parcela só foi autorizada em 7 de novembro de 2025, após o governo federal emitir um alerta de “inexecução financeira” por prazo superior a 180 dias.

Em julho de 2025, após três anos de paralisia, o Governo de MS apresentou uma “Justificativa Complementar” pedindo para alterar o objeto do contrato. Alegando que o processo licitatório original fracassou e que os preços de mercado subiram, o estado desistiu de comprar os 170 veículos tipo “Mini SUV” planejados.

No lugar deles, serão adquiridos apenas 90 SUVs de grande porte. Na prática, a demora administrativa fez com que a meta física do projeto fosse reduzida em 47%. O estado gastará os mesmos R$ 25,9 milhões, mas entregará 80 veículos a menos para o patrulhamento das ruas.

Culpados

Os documentos apontam uma divisão de culpas entre o estado e a União, mas o peso maior recai sobre a gestão local. O Governo de MS tentou, sem sucesso, pegar “carona” em uma licitação do estado de Minas Gerais que não prosperou por falta de fornecedores. Além disso, a transição para a nova Lei de Licitações (Lei 14.133/21) foi citada como um entrave que gerou “lentidão e fila de processos” na Secretaria de Administração de MS, conforme relatório da Sejusp.

Pelo lado do MJSP, a fiscalização demorou a agir. O ministério só apertou o cerco contra a inércia quando o convênio já estava tecnicamente “vencido” e sob risco de cancelamento total.

Convênios e dinheiro parado

O caso das viaturas não é isolado. A auditoria processual encontrou outros instrumentos de repasse em situação de abandono:

  • Convênio 891223/2019: Destinado à compra de sedans e ambulâncias, segue travado por “obstáculos legais” desde 2019.
  • Convênio 879985/2018: Uma obra do Corpo de Bombeiros em Fátima do Sul que se arrasta há sete anos e atingiu apenas 46% de execução.

O recurso existe, está empenhado, mas não chega à ponta devido à incapacidade de planejamento e execução.

R$ 25 milhões para segurança em MS mofam no papel enquanto violência dispara Read More »

Ministério da Justiça vê ilegalidade em ação da PM de MS contra indígenas e convoca reunião de crise

Polícias estaduais chegaram à retomada Kaa’Jari logo cedo, no dia 26 de abril, após uma madrugada com jagunços atacando os Kaiowá e Guarani. Foto: Reprodução/vídeo Aty Guasu

Documentos internos revelam que forças estaduais ignoraram ordens do STF e da Justiça Federal ao realizar despejo sumário em Amambai; Força Nacional e PF devem ser acionadas.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) abriu uma investigação interna para apurar possíveis violações de direitos humanos e descumprimento de ordens judiciais por parte das forças de segurança de Mato Grosso do Sul. O estopim foi uma operação realizada pelo Departamento de Operações de Fronteira (DOF) e pela Polícia Militar no último dia 26 de abril, na Fazenda Limoeiro, em Amambai, para retirar um grupo de indígenas Guarani-Kaiowá.

De acordo com minutas de ofícios e despachos da Secretaria Nacional de Acesso à Justiça obtidos pela reportagem, a cúpula do ministério considera “juridicamente frágeis e sem amparo legal” os argumentos usados pelo governo sul-mato-grossense para realizar a retirada sumária dos indígenas. A PM de MS teria agido sob a tese do “desforço imediato”, quando o proprietário retoma o bem por conta própria com auxílio policial, ignorando que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu esse tipo de autonomia em áreas de disputa indígena.

Desobediência a ritos federais
O MJSP destaca que o Estado de MS atropelou o regramento estabelecido pelo STF nas ações que discutem a Lei do Marco Temporal. Segundo o entendimento da Corte, qualquer reintegração de posse em terra indígena deve “ser humanizada, precedida de ordem judicial e contar com o apoio de forças federais, como a Polícia Federal e a Força Nacional, especialmente em áreas de fronteira”.

“O ordenamento jurídico não confere aos entes estaduais a prerrogativa de atuar de ofício (…) sendo imprescindível a intervenção do Poder Judiciário”, cita o documento, reforçando que a PM não pode usurpar funções da União. Além do despejo na fazenda, há denúncias de que os policiais ingressaram ilegalmente na Aldeia Limão Verde, uma reserva já homologada, o que agravou a crise.

Histórico de conflitos
A situação em Amambai é monitorada de perto pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) e pelo Ministério dos Povos Indígenas. Já existia uma decisão específica da 1ª Vara Federal de Naviraí proibindo o Estado de MS de realizar despejos contra a comunidade Pyelito Kue sem autorização prévia.

O Ministério da Justiça convocou uma reunião de emergência com a participação da Funai, Ministério dos Direitos Humanos e Polícia Federal para articular uma resposta coordenada. O objetivo é cobrar explicações formais da SEJUSP e garantir a proteção dos defensores de direitos humanos na região, que relatam clima de guerra e perseguição.

Ministério da Justiça vê ilegalidade em ação da PM de MS contra indígenas e convoca reunião de crise Read More »