Na contramão do país, MS registra alta de 20% nas mortes violentas em 2026

Enquanto o Brasil reduz mortes violentas pelo quinto ano consecutivo, dados do sistema estadual SIGO mostram Mato Grosso do Sul com todos os principais indicadores letais em alta; mortes causadas por policiais quase dobram e já igualam, em sete meses, o total de todo o ano passado
Mato Grosso do Sul caminha na direção oposta à do restante do país. Enquanto o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado nesta quinta-feira (23), mostra as Mortes Violentas Intencionais (MVI) caindo pelo quinto ano consecutivo no Brasil, o menor patamar da série histórica, o sistema estatístico da própria Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (SEJUSP-MS), o SIGO, registra alta de 19,9% nas mortes violentas no estado entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025.
O dado mais alarmante está na letalidade policial: as mortes por intervenção de agentes do Estado saltaram de 39 para 63 no acumulado janeiro–julho, crescimento de 61,5%, e em menos de sete meses já se igualam ao total registrado em todo o ano de 2025, que foi de 64. Os números do SIGO estão atualizados até 22 de julho; a variação real do mês, portanto, tende a ser ainda maior.
Os quatro componentes das MVI no estado mostram comportamentos distintos no acumulado janeiro–julho, segundo o SIGO:
| Indicador | Jan–jul 2025 | Jan–jul 2026 | Variação |
| Homicídio doloso | 222 | 253 | +14,0% |
| Morte por intervenção policial | 39 | 63 | +61,5% |
| Lesão corporal seguida de morte | 8 | 15 | +87,5% |
| Latrocínio | 8 | 1 | −87,5% |
| Total MVI | 277 | 332 | +19,9% |
O homicídio doloso segue sendo o crime que mais mata em volume absoluto: 253 casos em 2026, ritmo que, mantido, levaria o estado a fechar o ano na casa dos 450 homicídios — acima dos 401 de 2025 e o maior número desde 2022.
Mas é a morte causada por policiais que lidera em velocidade de crescimento. E a curva mensal revela uma escalada contínua ao longo de 2026: 6 casos em janeiro, 5 em fevereiro, 7 em março, 9 em abril, 11 em maio, 13 em junho e 12 apenas nos primeiros 22 dias de julho. Cada mês do segundo trimestre superou o anterior.
Se o ritmo se mantiver, as mortes por intervenção policial em MS podem ultrapassar 100 casos em 2026, repetindo o pico de 2023, quando o estado registrou 108 mortes desse tipo, o maior número da série histórica.
Padrão crítico
O Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública destaca que em seis estados brasileiros ao menos uma em cada quatro mortes violentas foi cometida por policiais, e cita o Rio de Janeiro, onde a proporção é de uma em cada cinco, como “retrato do peso da letalidade policial nas estatísticas”.
Em Mato Grosso do Sul, a proporção em 2026 já chegou exatamente a esse patamar: as 63 mortes por intervenção policial representam 19% de todas as mortes violentas registradas no estado no ano, uma em cada cinco, o mesmo nível do Rio de Janeiro, estado que o Anuário usa como exemplo nacional do problema.
Em 2025, essa proporção era de 12,9%. Em 2020, de 5,6%. A participação da letalidade policial nas mortes violentas do estado mais que triplicou em seis anos.
Três versões do mesmo estado
A gravidade do quadro de 2026 contrasta com o retrato que o governo estadual apresentou ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) para obter R$ 30,3 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP). Há hoje três versões numéricas de Mato Grosso do Sul em circulação:
A versão do plano federal (SINESP). No Plano de Aplicação protocolado no MJSP, o estado declarou 309 homicídios dolosos e 380 MVI em 2025, com taxa de 12,99 mortes por 100 mil habitantes, número que colocaria MS em situação confortável, bem abaixo da média nacional de 19,1 apontada pelo Anuário.
A versão do sistema estadual (SIGO). O painel público da própria SEJUSP registra 401 homicídios dolosos e 496 MVI em 2025, 30% a mais do que o declarado ao governo federal. Pela base estadual, a taxa de MVI fica em torno de 17,2 por 100 mil habitantes, praticamente idêntica à média do Centro-Oeste (17,3) apontada pelo Anuário. E esse número ainda não inclui os feminicídios, que o SIGO contabiliza em linha separada, foram ao menos 37 em 2025 e, até o momento, 15 em 2026. Somados, aproximariam a taxa real do estado da média nacional.
A versão de 2026. Qualquer que seja a base usada para 2025, os dados de 2026 mostram deterioração acelerada, +19,9% nas mortes violentas, com a letalidade policial em curva ascendente mês a mês.
A divergência entre as duas primeiras versões não foi explicada pelo governo estadual nem detectada pela análise técnica federal que aprovou o repasse.
R$ 30 milhões e 12 mil agentes de seguranca
O contraste entre o plano aprovado e a realidade de 2026 é direto. O Plano de Aplicação do FNSP prevê reduzir os homicídios em 3% até 2028, meta calculada sobre a base declarada de 309 casos. Os homicídios estão subindo 14%.
O componente das mortes violentas que mais cresce no estado, a letalidade policial, não tem uma única meta, indicador ou item de despesa entre os 69 itens do plano de R$ 30,3 milhões. Não há previsão de câmaras corporais, protocolos de uso da força, controle de operações ou qualquer ação direcionada ao problema. Dos recursos, 64,8% foram destinados à meta de homicídios, incluindo itens como cursos de mecânica de helicóptero e equipamentos para a unidade de policiamento aéreo.
O estado dispõe de 12.028 profissionais de segurança pública, 5.719 policiais militares, 3.732 bombeiros militares, 1.879 policiais civis e 698 peritos da Polícia Técnico-Científica, segundo declaração oficial da SEJUSP anexada ao processo do FNSP em março de 2026.
Com efetivo dessa dimensão, orçamento federal reforçado e todos os indicadores letais em alta simultânea, homicídios +14%, letalidade policial +61%, lesões corporais seguidas de morte +87%, a pergunta que o estado terá de responder não é se as metas de 2028 serão cumpridas, mas por que o plano aprovado em junho já nasceu descolado da realidade que os próprios sistemas estaduais registravam.
Pelo Anuário FBSP 2026, os estados mais violentos do país são Amapá (42,5 MVI/100 mil), Bahia (36,8) e Ceará (34,7), realidades associadas ao avanço de facções e disputas por rotas do tráfico. Mato Grosso do Sul não figura entre os dez primeiros, e o Centro-Oeste tem taxa média (17,3) abaixo da nacional (19,1).
Esse enquadramento, porém, é retrato de 2025. A fotografia de 2026, capturada pelo SIGO, mostra um estado em movimento contrário ao do país: enquanto o Brasil cai pelo quinto ano seguido, MS sobe em todos os componentes letais relevantes.
Estados como Rio Grande do Norte (+19,6% na taxa de MVI) e Rondônia (letalidade policial de 8 para 47 casos) são citados pelo Anuário como as exceções negativas de 2025. Se a tendência de 2026 se confirmar, Mato Grosso do Sul será candidato a ocupar esse papel no Anuário do ano que vem, posição que o estado não ocupava desde a década passada, e da qual a fronteira mais movimentada do tráfico no país nunca esteve verdadeiramente distante. E com a Rota Bioceânica prestes a entrar em operação.
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