ANCINE confirma que produtora do filme sobre Bolsonaro nunca registrou filmagem no Brasil

Documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação revelam que a Go Up Entertainment LTDA não apresentou a comunicação prévia obrigatória exigida pela legislação para as gravações de “The Dark Horse”, cinebiografia financiada por Vorcaro
A Agência Nacional do Cinema (ANCINE) confirmou que a empresa Go Up Entertainment LTDA nunca protocolou a comunicação prévia de filmagem estrangeira referente ao projeto “The Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro que teria sido financiada com dinheiro do Banco Master, após pedidos de dinheiro pelo senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL).
A informação consta de resposta formal a pedido apresentado com base na Lei de Acesso à Informação.
A comunicação prévia é exigência legal estabelecida pela Instrução Normativa nº 79/2008 da própria ANCINE para toda produção estrangeira realizada em território nacional. Seu descumprimento configura infração à regulamentação cinematográfica brasileira.
A resposta, assinada por Daniel Toledo Piza Tonacci, agente da Coordenação de Proteção à Informação (CPI) da ANCINE, diz que “não consta qualquer comunicação de filmagem estrangeira apresentada pela empresa GO UP ENTERTAINMENT LTDA referente ao projeto ‘THE DARK HORSE'”. O registro da produtora na Ancine, inclusive, foi feito em julho de 2025, poucos meses antes do início das filmagens, em setembro.
A legislação estabelece que produções estrangeiras realizadas em solo brasileiro devem ser conduzidas sob responsabilidade de empresa brasileira registrada no órgão regulador, que fica incumbida de apresentar comunicação prévia.
Banco Master
O descumprimento regulatório documentado pela ANCINE é o menor dos problemas dos produtores do filme até o momento.
A direção é do cineasta iraniano-americano Cyrus Nowrasteh, e o roteiro foi escrito por Mário Frias, deputado federal por São Paulo e ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro.
De acordo com reportagem do site The Intercept Brasil, áudios e documentos revelaram que o senador Flávio Bolsonaro tratou diretamente com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, um aporte da ordem de US$ 24 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação do período, para viabilizar a produção. Pelo menos R$ 61 milhões teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025 em seis operações financeiras relacionadas ao projeto.
O Banco Master tornou-se alvo de investigações após revelar-se um rombo estimado em R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), em um dos maiores escândalos bancários da história recente do Brasil. Vorcaro foi preso no contexto dessas investigações.
A Go Up Entertainment, por sua vez, também é apontada como empresa que recebeu R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo, sob a gestão do prefeito Ricardo Nunes, para instalação de Wi-Fi em comunidades de baixa renda, contrato que investigadores e parlamentares da oposição pedem explicações sobre possível relação com o financiamento do filme.
Em 2024, Frias destinou recursos do Orçamento da União ao Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama. Karina é dona da Go Up Entertainment, responsável pela produção de The Dark Horse.
O deputado federal Marcos Pollon (PL), atualmente com o mandato suspenso, também enviou emendas pix de R$ 1 milhão para o Instituto, intermediadas pelo governo de São Paulo.
