Sala Justiça

Justiça condena empresário por escravizar trabalhadores de MS na África

Sul-mato-grossense alega ter trabalhado por quase dois anos em uma zona de guerra e sem condições dignas e com atraso de salário

Um trabalhador de máquinas pesadas de São Gabriel do Oeste (MS), viveu um verdadeiro pesadelo ao ser vítima de uma fraude trabalhista e levado a trabalhar em uma zona de guerra no Sudão sem receber salário e com jornada excessiva por quase dois anos.

O homem assinou contrato em agosto de 2014 com o empresário Paulo Hegg que se apresentava como diretor administrativo da Sudanese Brazilian Modern Agricutural Project, multinacional que trabalha na produção agrícola na África. Com salário mensal de U$$ 2 mil (dois mil dólares) o profissional viajou no mesmo mês para Damazine, no Sudão, para trabalhar como operador de máquinas agrícolas.

Hegg, cuja família é proprietária de laticínio e divulgou várias notícias a respeito de seus investimentos na África, contratou vários trabalhadores em fazendas especializadas no plantio de soja em Mato Grosso do Sul. Além da condenação do trabalhador de São Gabriel do Oeste, há outras quatro prestes a ser publicadas, de acordo com o advogado trabalhista Mário Cezar Machado Domingos, do escritório Domingos, Veloso e Oliveira, de Campo Grande (MS).

Milícia e trabalho escravo

Profissionais brasileiros eram ameaçados por extremistas no Sudão. Arquivo Pessoal

Já no país africano, o trabalhador afirma que foi submetido a uma jornada de trabalho diária excessiva, das 6h às 20h, com apenas 30 minutos de intervalo, sem horário de almoço e com apenas uma folga semanal. Além disso, o trabalhador afirma que durante os meses de janeiro a maio, período da colheita, era obrigado a trabalhar das 6h até às 23h, com apenas 20 minutos diários de intervalo e sem qualquer dia de descanso.

Além da jornada excessiva, ele afirmou que, desconhecendo o cenário geopolítico do Sudão, trabalhava em uma região de conflito e não tinha condições dignas de trabalho e segurança.

Com conflitos permanentes entre os governos do Sudão do Norte e do Sul e de grupos terroristas pelo domínio da região, o profissional conta que era constantemente ameaçado e que sofreu agressões físicas durante o trabalho por grupos extremistas.

Para o advogado da vítima, Mário Cezar Machado Domingos, a situação vivida pelo profissional foi crítica e até análoga ao trabalho escravo.

“As reclamadas (Sudanese Brazilian Modern Agricutural Project e Paulo Hegg), com o único objetivo de ganharem dinheiro, ou seja, apenas visando o capital, expuseram o reclamante e demais colegas a situações de risco e humilhação, podendo, sem exagero algum, serem equiparadas a condições análogas à escravos. Apesar de saber do conflito e da situação a que os empregados estavam submetidos, as reclamadas não protegeram seus funcionários brasileiros do ambiente hostil, perigoso, sem proteção e longe do seu país. Tais fatos são comprovados por vídeos e fotos”, defendeu o advogado em ação trabalhista para a reparação dos danos sofridos.

Mário Cezar Machado Domingos, advogado trabalhista.

O calvário do trabalhador durou até o dia 19 de maio de 2016, quando foi demitido sem justificativa, sem garantias trabalhistas e com 13 meses de salário atrasado, totalizando US$ 26 mil (dólares) em salários não pagos. No dia 31 daquele mês, Hegg realizou o pagamento parcial da dívida no valor US$ 19.810,00, deixando um saldo devedor de US$ 6.190,00 com o trabalhador.

Ao retornar ao Brasil, o homem ingressou com ação contra Paulo Hegg e Sudanese Brazilian Modern Agricutural Project buscando reparar os danos sofridos durante quase dois anos no Sudão.

Trabalhadores brasileiros viviam em situação precária, de acordo com o profissional. Arquivo Pessoal

A defesa de Paulo Hegg e da Sudanese tentou a tese de incompetência da Justiça do Trabalho do Brasil no julgamento, pois o contrato seria entre o trabalhador e empresa estrangeira, para anular a ação. “Não há que se falar em aplicação da legislação brasileira ao caso em questão, haja vista que os contratos firmados fora do Brasil se submetem à legislação do local, e não à CLT”, alegou a defesa.

Porém a juíza Ana Paola Emanuelli Pegolo dos Santos afirmou que o contrato foi assinado em solo brasileiro. “Assim, porque comprovada que a contratação se deu no Brasil, rejeito a preliminar supra para, nos termos dos arts. 21, CPC e 651, §3o, CLT, reconhecer a competência da Justiça do Trabalho Brasileira e da Vara do Trabalho de São Gabriel do Oeste para processar e julgar a presente ação trabalhista”, decidiu.

O valor da causa foi atribuído em R$ 493.370,98 e em julho de 2019 a Justiça do Trabalho reconheceu os pedidos parciais do profissional e condenou os réus ao pagamento dos valores devidos. Em abril deste ano, com a relatoria do desembargador Francisco das Chagas Lima Filho, os desembargadores do TRT 24 (Tribunal Regional do Trabalho, 24ª Região) confirmaram a decisão da primeira instância favorável ao trabalhador.

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